24 de março de 2011

Sabor de Mar!

(Monólogo Harpa, Cena nº 17)




Você é algo assim... Inexplicável, você! Inesperado, você! Se alguém me perguntar qual é o teu sabor? Eu direi: ‘Sabor de amar! Sabor de amar ao som do mar! Sabor de mar!'
Só eu sei que sabor é esse! Pode vir quem vier, vir de onde vier, vir prometendo o que for, vir falando o que quer... Sentir mesmo, sentir você, como eu senti, só se souber qual é o sabor do mar...
Não, não digo sabor salgado que nos toma de assalto. É um outro sabor meu bem, um outro sabor com gosto de homem, de homem ao mar que navega a procura do que lhe apraz: a mulher desejada!

 E o mar, meu amor, ao sabor de 'a-sóis' era tão repleto de nós e dos mergulhos que fizemos a procura de mares, a procura de nós, a espera de ilhas, a espera de nós! Você, o sabor do mar! Eu, o querer das ilhas! Nós buscavámos as ilhas enquanto exploravamos os mares lençóis!   
Belas tardes de sábado e manhãs de domingo... Nós, o mar, seu sabor, meu suor... Tudo se misturava e você me banhava, me beijava, me abraçava com tamanha fome de mim que eu não via as ondas altas, não via o “chão’’ sumir de meus pés...
Eu estava segura! Teus braços de ‘homem do mar’ traziam um sossego de desassossegar! Teus olhos não me perdiam de vista... Eu estava ali e você estava ali, comigo! E inteiros, simplesmente, estávamos! Quem se atreveria a tirar de nós aquela calma que em ondas tomava todo o nosso mar, o nosso mar em volta de nós?!
Quando o sol saía para se pôr nós nos olhávamos com tanto frescor, queríamos que o dia estivesse começando, não queríamos terminar nada... O nada, lugar vazio, sem nós dois! ... Mas o dia ía anunciando seu fim. Nós não, sem fim que nos bastasse, nós queríamos sempre mais... Muito mais para ficarmos ali... Então...  
Quando a noite se pronunciava, era tão bom ver você me convidando para cama (nossa cama, um outro mar em que mergulhos não faltavam ao som da nossa melhor música: Os beijos!)Beijos, beijos! Muitos, muitos... Tantos que nem sei, que nunca me atrevi a contar. Sentir nos bastava, nos fazia dormir! 
Ah! Pensando bem teve um dia que você me deu cem beijos, lembra? Ia beijando cada pedacinho de mim e contando, contando, contando, e, quando se perdia nas contas começava tudo outra vez... Nossa que sabor e a pele parece que somente agradece o contato da língua!
Era você, o mar, o sabor. Era eu, o mergulho, o calor! Éramos nós, repletos de vida, quereres a milhares, e, ilhas de amor, nas ondas do porto, na barra do sol, numa cama divina cujos corpos ainda resistem as juras eternas das línguas que não se desmentem! 

23 de março de 2011

Se...

                                                                                                                   (Monólogo Harpa, Cena nº 16) 





Se eu pudesse sairia agora à procura de ti, te tomaria em um atalho qualquer e cantaria alguns segredos em teu ouvido.
Nem sei se você iria querer ouvi-los... Nem sei... Nem sei... Tenho dúvida desse querer... Mas quando eu começasse a falar, você pararia para ouvir... Eu sei... Eu sei... Tenho certeza desse fazer... Pararia senão por mim, apenas... Pela história que nos uniu e nos unirá por toda saudade!
Que homem, que homem, amor de minha vida, não pararia com cautela, para ouvir o que tenho tão docemente para dizer-lhe? Tenho palavras que são eternas, que têm um gosto de ‘para-sempre’, têm um gosto de nós dois...
São versinhos que fiz na tarde de algum dia bom, quando o nosso bom-dia foi rechedao de uvas e beijos gostosos, quando nosso amor contemplava a vida que passava pela janela e imagina flores e crianças chegando as nossas vidas!
Eu não quis rasgar os versinhos quando você foi embora... Eu os coloquei em uma gaveta... Uma gaveta dura, difícil de abrir, mas que reserva um pedacinho do que um dia fomos – eu e você!
Agora não tem ninguém em casa... Todos saíram para seus fazeres diários... Eu estou sozinha e assim posso pensar em ti, sem me preocupar com os olhares de mais ninguém sobre meus secretos pensamentos...
Então, peguei o bilhetinho, aquele que eu fiz e colei na porta da geladeira, lembra? Nele está escrito com uma letrinha tão cheia de voltinhas e florzinhas por todos os cantos que:

“Você é minha vida, minha pessoa querida, a quem quero tanto bem, um bem que me melhora a alma, me faz ser melhor que ontem, me faz dormir ainda acordada, me faz acreditar que somos possíveis, que nascemos um para o outro, que nosso laço nos enlaça, nos renasce, nos acolhe e nos faz repousar em nós mesmos”.

E eu concluo o bilhetinho com aquela música linda que diz:

“Não se admire se um dia um beija flor invadir a porta da tua casa te der um beijo e partir... Foi eu quem mandou o beijo só pra matar meu desejo, faz tempo que não te vejo, ai que saudade de ti”.

Agora choro... Tão baixinho que somente eu posso ouvir... Cai a lágrima que se chama ‘saudade’... Cai a lágrima que se chama ‘solidão’... Saudade e solidão eu sinto agora amor.
Saudade do que fomos ontem – um presente do passado; do que o agora nos tirou de repente, arrancando o presente que o presente poderia ter, e, do que não seremos no futuro posto que futuro é tempo para quem teve presente, não distante, não ausente, não coberto do ‘sem-nós’...
Eu odeio pensar no tempo... No tempo que se chama de ‘ontem’ -  tempo em que eu tinha você e nós tínhamos a nós... No tempo que se diz ‘presente’ - tempo onde o presente não se sente, se esconde e se comove com a saudade do passado. No tempo que se deseja ‘futuro’ - qual futuro, qual futuro ainda resta para nós?...
Eu só tenho o passado e a ele eu recorro toda vez que quero encontrar a ti... O meu passado da-me voce de presente nesse presente que não mais recebi. Você está no meu passado, minha lembrança mapeia você em meu presente e meu futuro chora a ausente presença de ti. Dá para imaginar o tamanho do dor que em mim repousa?
E a solidão... Você não sabe o que é isso! Também não quero que saiba, nunca, jamais... Não te desejo sentir o que sinto: Uma dor corrosiva que parece me destruir, me tirar de mim, me ausentar de tudo - já não vejo a chegada das tardes e não me comove os cantos dos pássaros.
Minha alma parece sair do corpo procurando outro corpo em que possa repousar só para ver se tem algum descanso do cansaço que lhe dou quando a solidão me invade sem pedir licença!

“Ah... Se me bastasse...
-a luz, eu olharia o céu, contaria estrelas, presenteava você...
-a água, eu me faria cachoeira, me transformava em véu, acolhia meu corpo sedento de nós!
- O sol, não brincaria com o fogo que tem meu corpo quando meus pensamentos vão até você!
- A lua, não me tomaria por faces posto que minhas faces todas são conhecidas por ti!
- A alma, não precisaria de nada, uma vez que tudo que hoje exalo é reflexo do seu plantio para me colher quem sou!
- A sombra, não acolhia nenhum outro corpo porque já existia um corpo intercalado ao meu – o teu, amor-!
- A alegria, ela seria tão plena, que não sairia de mim, não me largaria ao sabor de uma nuvem de folhagens ao dissabor dos ventos tardios!
E as primaveras, se me bastassem as primaveras, pensaria outra vez na leveza que tem meu ser-mulher quando floresce ao lado do teu mistério que me refaz de intensa procura!
E os invernos, se me bastassem, quando chegassem, me colocaria aos pés do pôr sol, para abastecer-me de ti, tua presença, que me sintoniza com a vida”...

Mas olha amor, eu estou aqui, eu estou aqui no lugar em que você me deixou, e, desde que você foi embora, vivo sem me bastar, me arrastando para ir a seu encontro, sonhando com a chegada de um abraço em que me bastassem seus braços para abastecer minha vida!