8 de setembro de 2011

Análise

Monológo Harpa (Cena nº 29) 



Agora são 18 horas e o tempo não me ver passar como eu o vejo. Porque será que presto tanta atenção no tempo? Às vezes, penso, que poderia não existir relógios, nem tempos de ontem, de agora, de amanhã...

Isso, de pensar sempre no tempo, causa agonia e transborda angústias... O tempo é soberano e nós somos apenas criaturas que sonhamos com o ‘alado’ que nos transportará para tempo de ontem (saudade) ou para tempos de amanhã (esperança), sem perder a leveza da alma, o fascínio 'devir' .   


É o tempo de agora que me mostra que sou uma alma em busca de um corpo ou um corpo em busca de uma alma. Algo em mim está perdido e talvez exista uma briga entre tempos, contratempos de desejos! Não sei bem o que é nem quando aconteceu essa perda! Mas não posso deixar de sentir que perde-se é importante! Para que necessitamos tanto de achados sistemáticos que revelam a constância mentirosa da inconstância verdadeira que somos nós?


O vazio serve para lembrar que algo acabou. Acabou porque tudo tem um fim – que óbvio mal-dito ou bem-dito! Que bom pensar no fim porque somente ele é sinônimo de algo começou! E se começou foi para cumprir um tempo que nem o tempo quis saber medir! O fim é o principio de tudo e de um nada sem nome, indefinido, volátil, versátil, sonoro, eterno! Que vale! Sempre vale!


E porque o fim teve que ser agora? Perguntei-me pensativa! A resposta não veio e nunca virá! O tempo dirá se era preciso! Cecília (Meireles) me disse certa vez que: ‘é preciso deixar-se cortar para se fazer inteira’. Ela tem razão e é necessário viver o corte do tempo absoluto que tanto queremos! Somente esse corte será capaz de um levar ao relativo eterno das coisas.


 A alma apodrece quando não acorda todas as manhãs e fica a espera de um tempo que passado, ainda, escurece o presente. As manhãs nunca nascem quando as noites não são prósperas de vidas, desejos acesos em faíscas do querer. Há de chegar o tempo em que a alma acordará para o agora, as manhãs anunciarão primaveras... 

Na primavera o florescer grita, grita igual às gaivotas... E o grito anuncia o belo e o frágil, o justo e o forte nas paisagens visitadas em sinômino de procuras... E, nas procuras, eu também estou, florescendo-me no livre balanço da dança dos pólens.     


E, voltando as gaivotas, o tempo passa por elas ou elas sobrevoam o tempo? Não existe limite, existe um ser que vive e procria, alimenta e se alimenta, reinventa o vôo livre e perfeito! Ali esta a expressão do próprio devir ‘um vir a ser’ infinitamente fecundo e amparado em buscas!


Quero ser uma gaivota! Abusar do tempo sem sentir que ele passa, encontrar-me em céus onde existam em formas de brisas, expressões de 'um talvez', 'um até logo', 'um até mais tarde', 'um volto logo'... Um algo que me pulse, recupere em mim uma liberdade para pensar em vôos.   


 Quero ser uma gaivota! Infinitamente me renovar a cada vôo livre. E, quando pousar no mais alto-chão, admirar o infinito com olhos de quem sabe sentir o mar... E, sentido-o, lembrar-me, amavelmente, do amor que o tempo marca em saudade, e,  possibilitar-me, suavemente, uma distância repleta de paz em que o tempo seja um amigo, não um algoz (um retrocesso)!        


 

                                                                                                                            


8 de junho de 2011

Meio e Meia

(Monológo Harpa, Cena nº 28)

Eram 4 horas da madrugada. Eu sentia meu corpo dormir leve...

Em meio às cobertas senti você chegando devagar e tomando conta de meu corpo com cuidado e por inteiro.

Percebi que era um sonho, mas me recusei a continuar percebendo. Era melhor deixar o sonho fluir no sono que me tomava.

Eu fui sentindo o sonho ser verdade. Uma verdade nua, linda, transparente, convidativa... Então, por um momento, dei pausa ao sonho e pedi ao sono que não se atrevesse a me acordar.

Eu não precisava acordar, precisa era continuar fora de mim, dentro de ti e para além de nós. Nós somos uma estranha força que nos empurra para o sonho quando a realidade não quer mais nos aproximar!

De repente, vi, nitidamente, minhas mãos retirando cada peça de minhas roupas... Eram minhas mãos ou eram tuas mãos? Nem sei! Elas se misturavam numa doce metade em meio a nós.

Novamente implorei ao sonho que não se afastasse de mim... E forcei meu corpo a continuar dormindo e ele temporariamente obedeceu-me.  

E, então, eu fui sentindo tua visita, teu passar de pernas, teu colher de braços, teus abraços repletos de bem mais que bem querer.

Triste foi perceber que, por mais que eu implorasse, o sono ia se afastando de meu corpo sedento de mais sonho, de mais você, de mais verdade (nossa verdade que agora repousa na distância que ainda nos mantém próximos).

E o sonho saiu de mim... Despediu-se devagar, me deixando aos poucos, e, o sofrimento se fez presente porque eu queria que o sonho recomeçasse, voltasse para mim e continuasse do ponto em que parou ou começasse tudo outra vez.  

Isso era o que eu queria, era o que eu queria e desejava, mas não teve jeito, não teve apelo, não tiveram palavras, não existiram súplicas, nem ‘espera mais um pouquinho’ ...  - nada mais era ouvido pelo sono -.

Então, o corpo acordou, se despediu do sono, e, o sono se afastou do sonho, e, o sonho ficou, ainda por horas, projetado em mim... Mesmo sem mais estar em mim ele continuava em mim... Era estranho, mas eu consegui manter o sonho sem que o sono estivesse em meu corpo! 
 
Meu sonho teve pena de mim e se recusou a sair de mim de maneira abrupta e, por isso, demorei a sentir, a perceber, a entender que: O sono havia deixado o sonho, o sonho havia se afastado do meu corpo, e, meu corpo sem sono e sem sonho havia ficado órfão de ti, dispido de mim, ausente de nós, ali sozinho em metade em meio a saudades, lembranças que alcançam o sentido de ti.

O dia, então, se passou em meias metades entre tantos meios: Meio triste, meio alegre, meio amargo, meio doce, meio loucura, meio sereno, e, nesse emaranhado de ‘meios em meios’, uma meia parte de mim se foi junto com o sonho procurar por onde andamos nós dois, e, a meia outra parte de mim se foi para a varanda, olhar passarinhos, descobrir seus ninhos, pedir ao tempo da manhã que chegasse o tempo da tarde, pedir ao tempo da tarde que trouxesse o tempo da noite...

E quando o tempo da noite chegou, notei um matiz diferente no estrelado... Encantei-me com o sinal e me pus a olhar para os muitos céus agradecendo a oportunidade silenciosa e ousada que tive de tê-lo mais uma vez tão em meio a mim, tão em mim inteira, na meia metade em que pudemos compor nós dois em um. 
      

13 de maio de 2011

Abraçada


(Monólogo Harpa, Cena nº 26)



Faz tempo que não me encontro assim: Abraçada com a felicidade!

Nossa como é prazerosa a sensação de sentir e de viver isso assim desse jeito, repleto de chamego que o momento nos dá! 

É tão bom que só consigo trazer para meus braços os abraços vindos de ti. E como você vem... Nossa, você vem de uma maneira tão especial, tão indescritível que, muitas vezes, fechamos os olhos para não vermos o tempo passar!

Nossos abraços são como aquele vinho antigo, guardado de modo especial, naquele lugar que somente nós dois sabemos!

Como me sinto infinita quando encontro-me abraçada, enroscada em ti... E você, ainda ontem, disse-me em pergunta:


“Para que pensar no tempo que acontece lá fora se o tempo que acontece aqui dentro de nós, nos toma por completo e nos felicita por estarmos vivos, vivendo nesse ninho de carícias, no qual os abraços são laços, são encontros de uma vida?”.
 
Na verdade, gostamos tanto de nos abraçar que, às vezes, faltam-nos braços, sobram-nos desejos, borboletas voam em torno de nós e a música nos leva para lugares que não podemos contar.

Ainda ontem, depois do jantar, a música tocava suave, convidativa e perigosa quando, de repente, sem que eu esperasse, você me perguntou com os olhos e com a boca:


“O que é que eu faço que te deixa mais excitada, com vontade de muito mais?”
 

E, eu meu amor, respondi sem muito pensar, com muito a querer e com muito sentir que:


“O que mais me excita é receber você em torno de mim, ‘’futucando’’ em meus cabelos, contornando minhas costas, procurando minha cintura, trazendo-me para perto, e, mais perto, e, mais perto, deixando-me presa sem vontade de fugir, com vontade de amar, sem nenhum tempo medir!”.


E, você, mais enroscado ainda em mim, me revelou que eu sempre te ‘pego de jeito’ com minhas palavras inteiras, repletas de nós, sem meia verdade, sem pudor que permita a proibição repousar!

Nossos abraços, um fogo puro, reflexo de uma paixão que quer se tornar um algo a mais, que quer repousar segredos, que deseja encontros de pernas, que silencia depois do amor, que não quer cobertor, posto que não quer encobrir a parte de nós que nos torna ‘um’ apesar de sermos 'dois'!

     

16 de abril de 2011

Às Cinco da Tarde

                                                                                                             (Monólogo Harpa, Cena nº 25) 



Às Cinco da Tarde, estávamos lá: Eu, Eu Mesma e Eu Desejo!
Confuso não?! Bem, acredito que é preciso explicar esses três eu’s que teimam em mim habitar!

Eu (essa parte de mim que todos vêem). Eu Mesma (essa parte minha que só revelo a quem me interessa) e Eu Desejo (uma parte de mim que se mostra e se esconde, se oculta e se revela, e, se revela quando mais se oculta).

Nós três, tomávamos o café! E nós conversávamos tanto, mais tanto que não víamos as horas passarem. Para que olhar relógio, marcar o tempo que tão temporal é?! Em cada conversa iniciada, parecia que estávamos construindo uma tese. Uma tese cujo problema central poderia assim ser descrito: Como fazer para sentir-se capaz de viver plenamente as sementes plantadas e retomar caminhos em que se deixou de plantar?

                                       Sabe por que esse é o problema?

Primeiro, porque descobrimos (Eu, Eu mesma e Eu Desejo) que muito se tem plantado e pouco se tem desfrutado. Nem ao menos sabemos se as árvores ainda em sementes dariam flores ou frutos, ou, galhos secos ou vistosos. Plantamos e lá deixamos. Não revisitamos a plantação, para não revisitar o lugar, para não nos revisitar. – Essa talvez seja a maior certeza e a mais triste também – não queremos nos revisitar!

Talvez por medo, timidez, vergonha, desconfiança, baixa estima... Talvez por tudo isso junto o que nos daria uma procura maior ou nos lançaria em precipícios internos esses que ninguém vê mais que às vezes teimam em habitar em nós e se transforma numa eterna tortura.

Em seguida, porque percebemos que o tempo passou e não plantamos. Deixamos para depois e esse depois nunca chegou. Um ‘depois’ preguiçoso que nos fez perder a era dos mosteiros, das catedrais e igrejas, dos castelos e dos mosaicos, das histórias de reis e rainhas, príncipes e princesas, estados de amor!

E o tempo, este senhor sedutor e malvado, foi se misturando em tempo de Deus (na Visão de Voltaire), em tempo de Cosmo (na visão de Kepler), em tempo de Corpo (no sentido da realidade e da metáfora), em tempo de Estado (visão de homem, de mundo, de política, de in-significâncias). Quantos tempos para falar de nós! Quantos tempos perdemos em nós!

Será que não há mais tempo real? Meu tempo de hoje (meu hoje – do meu eu, do eu mesma e do eu desejo) atende pelo nome de Deriva. É objetivo quando me recuo. É subjetivo quando me perco. É absoluto quando não me deixa fluir. É relativo quando me permite apenas ser. É natural quando me revela parte de um todo chamado natureza. É Biológico quando me diz: ‘És ser humano, humanize-se!’

Será que não há mais tempo pontual? Meu tempo de agora (meu agora - tempo do eu, do mesmo, do desejo), atende pelo nome de Instante. É histórico revelando quem sou, onde estou, porque estou! É cíclico porque me faz devir, movimentar-me! É mítico e é cósmico quando me faz ouvir as estrelas e advinhar o áurico sussurar dos sonhos . É cosmológico e astrológico quando me avisa os mistérios do porvir, me faz acreditar em outros mundos nos quais as histórias são contadas de maneiras diferentes.

Será que não há mais tempo seguinte? Meu tempo seguinte (meu seguinte em meu eu e não-eu; do mesmo talvez igual; do desejo qual será? Ainda há tempo?), atende pelo nome de Profético. É estático, é parado; é dinâmico, é volátil quando me reveza, me conserva, me consola, me engole, me (contra)diz..., me anuncia, me reserva, me comprime, me alerta, me faz delirar em mares não visitados, em ondas ainda temidas porque teimama em tomar conta de mim. 

Será que não há mais tempo sentido? Meu tempo sentido (meu sentido é meu eu ressentido, meu mesmo/igual a buscar diferenças; meu desejo repleto de inconstâncias) e atende pelo nome de ‘Estar’. É fractual, é curto, é longo, é negativo é positivo quando me multifaceta, me multicolori, me fragmenta, me faz parte de um todo, me diz ser todo sem aquela parte! Me mostra o relativo no absoluto e absolutiza o que ma faz ser relativo!

Hoje, às Cinco da Tarde... Conversei com as três em mim. Qual delas tem a razão que fere, silencia, emancipa, polariza, invade, condena, absorve, quer explicações, quer deixar para lá as palavras nudas que não querem se expor? Qual delas tem a paixão que atormenta, reveste, se lança e alcança, dorme e acorda, sonha e em entra em pesadelo, chora e sorrir, entoa e destoa, voa e pousa, sente e ressente o pedido que a boca não explorou?!
   
Amanhã, há mesma hora, estaremos lá as três, para continuarmos uma conversa que não tem fim e cujo começo tem dois momentos:

                         O primeiro, que fluiu no tempo ‘presente’ que olha o ‘passado’, faz do ‘passado’ o ‘presente’ e não sente (ou sente, não sei!) as querências da alma em chamas!
                        O segundo, que propôs para o tempo futuro ser ponte e ser fonte nos quais cabem clamor de passagens para que as próximas sementes não sejam deixadas para trás ou jogadas em quaisquer lugares onde não brotam as vontades contidas no desejo e não façam o ser 'Ser um Ausente', provido do 'Hoje' à Deriva, tomado pelo 'Agora' só Instante, agonizando o 'Seguinte' no Profético e calado no 'Sentido' de Estar. 

14 de abril de 2011

Princesa

                                                                         (Monólogo Harpa, Cena nº 24)


Ontem à noite minha última leitura foi em Carlos (Drummond de Andrade). Li com atenção seu poema “O amor antigo” e lá está escrito que: /O amor antigo vive de si mesmo,/ não de cultivo alheio ou de presença./Nada exige nem pede. Nada espera, / mas do destino vão nega a sentença/.

E então, sai da leitura, para entrar em mim, estranha criatura que ainda sonha com o passado a quem dei-lhe o nome de ‘passado próximo’ só para ver se fica mais presente aquilo que já é passado instante, soterrado por lembranças, querências de uma sentença!
E se é antigo, é ainda muito recente, no coração de quem sente, posto que o que é antigo recebe nome de velho e velhice pode até morrer por viver mendigando outro porto! Outro porto onde o sol mesmo antigo, quer e teima ‘viver em-si mesmo’. E não é que isso até que pode acontecer e perdurar por eternidade? E acontece também que é triste saber que o antigo só se conserva nas fotos da estante!
Nada exige e nada pede’! Isso é possível até que ponto?! Exige a presença marcada pela ausência, pede retorno em voz oca de ecos! E espera a esperança se anunciar! Nossa como espera por um destino que te traga ‘o ontem’ para ‘o agora’ e ‘o agora’ para o ‘para-sempre’.    
E o Carlos, continua: /O amor antigo tem raízes fundas, /feitas de sofrimento e de beleza/Por aquelas mergulha no infinito,/e por estas suplanta a natureza./ Neste instante, fechei meus olhos e reservei minha ida as minhas profundezas poços sem chão ou com chão a deriva!
Procurei as raízes, busquei em que terras tu estavas, sai despedindo-me das tristezas, do sofrimento que me impus e lembrando-me das essências que abrigam as belezas, as purezas que ao amor conduz! E infinitamente, sobrecarreguei meu pranto, querendo um manto para cobrir-me, mergulhei em águas claras, mergulhei em cantos tórridos, lágrimas em cristal de sal descendo em sublimes cachoeiras, segurando o ainda terno, doce súplica da natureza para ter tua alma mirando-me!      
Carlos, ainda lembra-me: /Se em toda parte o tempo desmorona/ aquilo que foi grande e deslumbrante, o antigo amor, porém, nunca fenece / e a cada dia surge mais amante./.
E assim foi fortalecendo-me: O amor, o tempo, o que a masmorra não perdoa! Mas torna grande, triunfante o que ali se afeiçoa, em cálido canto de candura que não apodrece, e, ainda cura aquilo que os tornou amantes!
E já no fim, qual fim? Ainda ouço Carlos falar: /Mais ardente, mais pobre de esperança. Mais triste? Não. Ele venceu a dor,/e resplandece no seu canto obscuro, / tanto mais velho quanto mais amor/.
Então, por fim, sentir: É por isso que somos sempre as princesas em nossos sonhos e buscamos os príncipes, os homens gentis, os cavaleiros alados que ao nos encontrar, retiram-nos de grades suspensas; libertam-nos das masmorras, lugares infinitos e perdidos em si; faz-nos sentir especiais e eternas, e, somos infinitas enquanto existimos, e, somos amadas também por bandidos amados, queridos, bem-vindos que nos roubam para nos salvar!
As princesas não precisam acordar! E quando acordam buscam o sono que traga o sonho iniciado posto que acabou antes da hora, antes do tempo se dissipar, antes da estação terminar, antes do “basium", do "Bozk", do "Beso", do "Kiso", do "Baiser"(...) calar-te a boca...
As princesas sempre sentem que o amor vence a dor! Que a dor esvanece-se na saudade. Que a saudade se chama esperança e a esperança se traduz em lembrança d’onde a tristeza somente repousa quando os olhos se abrem!

13 de abril de 2011

Seios

  (Monólogo Harpa, Cena nº 23) 



O Vinicius (de Moraes) disse em uma de suas poesias: “Tomara que a tristeza te convença que a saudade não compensa”. A partir dessa idéia que é quase um sentimento, eu fiquei pensando se vale a pena eu viver brincando de ser feliz, quando a infelicidade me consome e desconsola meu olhar!


Na madrugada desta manhã, chovia pingos de mim em lágrimas de puro sal. Quanto mais chovia em mim mais eu chorava por ti e custei a recuperar-me. Abracei-me muito forte e, de repente, notei meus seios apertados sobre meus abraços e os percebi com saudade de nós!


Não havia uma só madrugada, claridade cálida que acorda o dia, que eu não acordasse com você passando suas mãos por todo meu corpo! E você procura meus seios e tocava de forma leve e intensa e quando eu me dava conta você já estava por completo em mim!


Nas manhãs de qualquer tempo, com mãos em qualquer desassossego, entregava meus lindos seios a doçura de teus lábios tão repletos de ti. Era um amor fora de hora que a hora não se atrevia a contar.


Para que tempo, quando o tempo mais requerido era aquele: Aquele que tuas mãos procuram meus seios, sentindo-os inteiros em gosto de mel. E tuas mãos, nada egoístas, dividiam espaço com tua boca aflita!    


Se tuas mãos procuravam meus seios, tua boca procura meu gosto num gesto caliente e gostoso de onde brotam todo um clamor! Que belo, amor, te perceber presente em mim e dentro de mim...


Nas tardes de qualquer estação, estava você a convidar-me a ‘estar’... Era um estar malicioso, cuidadosamente preparado para não me deixar escapar. Escapar, como? Para quê? E eu queria escapar? Só se fosse Louca, estando longe do juízo perfeito! Só se fosse Santa, estando longe do pecado predileto!


E as tardes demoravam a passar... Acho que elas tinham medo de sentir falta de fôlego quando o pôr do sol começava anunciar a véspera da noite... E, então, a gente tratava de esconder o tempo por entre nossos dedos famintos!


As noites, quando chegavam, delícia de hora esperada, suspiro de alívio em desejo, ali estávamos prontos para recomeçar! Se tínhamos cansaço? Cansaço de quê?! Que cansaço pode ter mãos que procuram corpo, bocas que procuram afeto, no feto chamado seios marca sagrada da mulher?!   


Felizes as mulheres que usam seus seios para acalentar, para desfrutar, para emergir êxtase, para se deixarem tocar, felicitar!!! Os seios de uma mulher sabem e sentem, pronunciam e enunciam o nome do homem que lhe encanta a alma, que lhe seduz à meia luz ou à luz inteira do ousado lugar onde habitam os atalhos e os caminhos dos quereres!


Felizes os homens que sabem o que fazer quando tocam os seios de uma mulher e os levam a boca, e, sabem, ainda, que não podem matar o desejo do corpo nem podem morrer de amor, posto que, se assim fizerem, estarão destruindo a si próprios! E, então, no lugar do “Tomara que a tristeza te convença que a saudade não compensa” Existirá: “Oxalá eu possa voltar para, então, poder desfrutar do que a morte sem pensar me roubou de açoite!


Seios... Dois pedaços de carne, bem moldados, cheios de quenturas, uma loucura da criação... Se Deus não os tivesse feito o que seria dos homens sem seu gozo costumeiro? Morreriam de inanição, prostrados sem explicação, gozando um gozo amargo de imensa solidão!     

E agora, neste momento, não mais estou 'brincando de ser feliz', estou desfrutando a felicidade, consumindo um gozo, uma verdade, cujo consolo repousa nas mãos de um faminto a quem chamo 'Saudade'!

10 de abril de 2011

1/4

                                           (Monólogo Harpa, Cena nº 22)        


Era uma manhã de outono, quando abri metade da janela, um terço de cortina e fiquei te olhando com aquele meio olhar já pensando no convite que iria te lançar!
Admirei-te, admirei-te, enquanto você passava com ‘meias’ passadas, por entre as flores que caíam na sacada da metade ainda velha da casa de tua jovem avó!
E as horas em partes passando, meu fogo então aumentando, querendo tudo queimar... Era um fogo gostoso, com gosto de mais um pouco de um inteiro que faz delirar!
E de vez em quando eu chegava à janela, para ver se seus passos anunciavam você voltando para, então, eu assim, meio sem querer, (muito querendo), a sóis te encontrar!
E foi uma busca gostosa, daquelas que a gente não sente tempo eterno passar, e, se passa não se sente porque não existe sombra quando corpos estão à fresca, procurando brisa para enamorar!
E, então, a noite chegou e eu não vi meia lua, nem lua minguante... Vi, sim, foi o quarto crescente se anunciar no meio de tantas metades sentidas inteiras e queridas que meu corpo pulsava em compasso arrítmico.   
Fiquei esperando você voltar, sair mais uma vez por aquele atalho floral, e, quando você apareceu fiz de tudo para te encontrar, apenas pondo meio corpo uma vez que ali não eram hora nem lugar do corpo todo se amostrar!
E, então, você retornou, apareceu vestido numa metade sensata, com jeito de moço de família daqueles que parecem não pensar nas coisas que o kama Sutra suscita e deseja ensinar!
Diante de tamanha sensatez, timidez, pureza de amedrontar, achei melhor esforçar-me, para te lançar com jeito aquele olhar inteiro querendo te conquistar.
Minha conquista é muito simples, não gosto de passar vontade, ficar com água na boca enquanto a garganta pede saliva para começar!
Então, pensei, que para não te assustar era mais viável propor ‘ousadia’ sem, contudo, nenhuma palavra ou ao menos alguma meia palavra pronunciar.
Fiz-me, então, de tímida! Dei uma de mocinha que 'vê e finge nada visto', que 'ouve e não sabe e nem ouviu', que 'quer e recusa o requerido', que 'mente e sente a não-verdade', que 'faz de tudo para alcançar o que alma reclama e o corpo emana' sem, contudo, revelar o tamanho do demônio – em forma de libido - que em mim habita!   
Fiz-me, então, de misteriosa! Foi bom porque com essa minha maneira expansiva, muito segura de falar, poderia espantar o espantalho amedrontado por não saber por onde e qual lugar começar!
Não falei com palavra alguma nenhuma parte do meu desejar... Mas o pouco que falei, em meio tom, com ritmo em metade, foi o suficiente para emprestar um pouco de silêncio para agora encorajar e então começar!
E então, para minha surpresa, ‘aquela pessoa’ que é ‘seu você’, que nunca se anima a nada, começou a balbuciar um pouco de conversa fiada, palavra comprada em algum almanaque, retirada dos confins dos dicionários, sei lá...
E meus ouvidos ficaram parados, mas não captaram nem parte, nem um terço, nem um quinto do que você falava porque meus olhos procuram à outra metade tua – aquela escondida por entre as roupas que, em parte, diz, e, em parte, nega o que um suspiro inteiro deseja!
Quando percebi que nada ouvi do muito que foi falado, resolvi o tal problema, com um meio sorriso que saiu de meus lábios inteiros com vontade de gargalhar, mas contive a minha louca, quase toda, boca a abrir!
E, então, me lembro muito bem que metade da minha mão tomou teu meio braço e a outra metade de meus dedos tocou de leve tua roupa em pencas (fica zangado não, mas, você parece uma cebola com tantas capas a te cobrir).
E eu só te deixei tocar um terço do meu rosto para ficar com mais gosto de degustar-me em fatias (as fatias requerem cuidado, requerem um jeito especial de servir para que tomemos o sabor intenso dos temperos).
Notei que a tua camisa tinha a metade da manga dobrada e que isto dava a você um charme que me incomodava posto que eu não parava de te medir, hummm, hummm... E sabe que tirar medida a olho nu parece que serve ao fogo que o nu promete?
No meio do caminho, desse ‘olha e não olha’, ‘pega e não pega’, ‘sorrir e não sorrir’, ‘fala e não ouve’, ‘ouve sem falar’... Esses joguinhos que servem para esquentar...
Senti que já era hora de levar-te a um ¼ para que nós dois – tu com tua metade acanhada e eu com meu inteiro 'bem intencionado'-, pudéssemos, enfim, ser apenas o todo das partes que se sustentam em desequilíbrios (rsrsrsrs).
É essa parte que reparte e faz de cada metade a nossa melhor parte, que me faz sentir vontade de encontrar todas as partes nesse pedaço chamado cama, nesse inteiro chamado desejo! 
E agora amor, depois que quase tudo acabou, - apesar de todo esforço (meu) -, não vou perguntar se"Foi bom para você" ou se "Foi bom para mim" porque para mim, ainda está a metade do que um 1/4  promete, em 1/2 luz que reflete a inteira noite de quase madrugada do dia que se anuncia até que aprendamos a nos tomar por completo!

7 de abril de 2011

Crepúsculo

     (Monólogo Harpa, Cena nº 21)


Tenho, ultimamente, me dedicado a leitura em Lygia (Fagundes Telles). E ela diz que: “a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio tom, nessa incerteza”. Bonita essa forma certa de ver o incerto que nutre a cada um de nós em particular!

E hoje, ainda era manhã, quando senti um crepúsculo dentro de mim. Estranho não é mesmo? – o crepúsculo nascer de dia, ainda numa manhã – Mas eu senti o crepúsculo a esta hora do dia. Sentir-me poente e nascente, mistura graciosa de luzes, espaços matizes que o céu pincela!  

Sim, o crepúsculo é o fascíneo instante em que o céu se coloca bem perto ao horizonte, nascendo um poente ou poendo um nascente do qual deriva uma cor degradê que sutila entre o azul do ‘fugaz’ dia e o escuro da ‘eterna’ noite.

Mas, para quem esta repleto de querências e tomado por in-certezas, o crepúsculo parece se formar a qualquer tempo e a qualquer hora em que o tempo se atempora e não se permite medir, permitindo ao humano perceber-se humano não dono de si, mas dono de uma inconstância vontade de ser.   

De repente, tomei-me em meus braços, me abracei tanto que quase não desgrudei de mim.... Era preciso viver este encontro – do ‘meu ser’ com o ‘ser-em-mim’–. E o abraço foi demorado, era preciso que assim fosse, porque eu já estive abaixo da linha do horizonte, já me perdi muitas vezes, deixei-me escapar como água por entre os dedos ou como sol por entre o pôr...

Lembro-me de uma vez que estive em regiões montanhosas e como foi estonteante belo, leve e astuto,  apreciar-me de lá...  É... O crepúsculo também pode acontecer nos caminhos das montanhas, por entre montanhas, para além de montanhas... Para além mar onde os navegadores observam e definem o navegar!

            Eu observei e defini meu navegar!
                        
                  O sol se fez presente mesmo quando imperceptível.      

                       Meu Deus, como é bom crepuscular quando se percebe que:

- Quando pensamos que tudo esta perdido, sem volta, sem tônus, sem calor, sem tesão!, aparece milagrosamente o sol abaixo ou na altura da linha do horizonte e nos diz que tudo passa, redefine, reconfigura, renova, renasce, anuncia!  

- O habitual banho de mar renova-nos dizendo-nos que constelações estão dispostas a iluminar-nos desde que nos permitamos a retornar ao passado somente como lembrança e não como desalento.

- A esperança move a vida íntima, recolhida, ferida, e, acena-nos para a presença de uma magnitude estrelar capaz de minimizar projeções desastrosas nas quais nos colocamos por toda uma vida impulsiva!

Por quanto sol e quanta luz, e, por quanto tempo e quanta hora, demora a existência  de um crepúsculo? Talvez existam muitas respostas em estudos dos mais variados possíveis! Mas em mim não há resposta que agrade, que dê conta de explicar!
Eu não sei explicar o tempo que demora a hora que reluz a luz no solar em mim. Eu não sei! Eu eu não sei! O que sei é que sinto que me conforta, que me mostra a importância do abraço no qual me enlaço, me silencio e me provoco a ser mais ‘eu comigo’ e menos ‘eu contigo’!
Já se foi o tempo em que meu horizonte era apenas marcado pela vista das palmeiras imperiais que estão a minha frente e moram no ambiente no qual sou andarilha! Hoje, meu horizonte é feito por incertas frestas de luz e é mais plausível que aceitar o tudo sempre do ‘mesmo’ jeito sem jeito de ‘igual’ que você quis me plantar!
O que eu quero mesmo é espalhar-me por toda a casa e por toda a vida, tomar a luz em mim refletida e fazer-me ponte para o que desejo, deixando-me ser assim: ‘Sempre no sentir, eterna no acolher, simples no entender, amável para colher o que o crepúsculo me dispuser!’
E, então, amanhecer receptiva para: Receber o tempo, buscar a lamparina para iluminar incertezas e renovar as únicas certezas que ainda tenho - ‘Que a vida é travessia que não termina posto que se renova; é crepúsculo que se põe trazendo o poente que é nascente; e é caminho que milagra sentidos que somente à luz traduz!'    
       

6 de abril de 2011

Jantar

                                                              (Monólogo Harpa, Cena nº 20)

Estava arrumando as gavetas e encontrei uma caixinha repleta de cartas de amor.
Lembrei-me, então, de um tempo bom que não volta, não volta mais (agora estou em lágrimas). Como é belo saber o que já viveu e como é triste saber que não tem mais volta. Não adianta tentar corrigir, pedir para voltar, forçar recomeço daquilo que as nossas almas já não mais compactuam posto que não mais estão juntas!
No entanto, (agora enxugo meus olhos), estou ainda a pensar em você e em tudo o que já vivemos. Como é bom recordar, relembrar, refazer caminhos já vividos! Alguém já disse que recordar é viver! É um consolo, mais tudo bem! O que seria de nós se isso também não nos fosse mais possível?
De repente entardeceu e eu notei o tempo mudando quando olhei a brisa chegando pela janela da sala de jantar. Imaginei nós dois ali e lembrei das loucuras que fazíamos. Nossa se aquele tapete falasse! (agora sorriu). E se as taças de vinho tivessem olhos e nos vissem com aqueles chamegos intermináveis (agora choro!)
Que saudade eu sinto dos teus braços sobre meu corpo, da tua língua passando por mim, dos teus beijos inteiros com fome e sede de nós dois! E de tuas palavras metade meiguice e metade pimenta que eu adorava ouvir em sussurro.
Então senti vontade de preparar um jantarzinho. Fui para cozinha, levantei tudo que pude nos armários e na geladeira, fiz uma deliciosa comida (empanado de frango, batatas souté, arroz à grega, salada simples) e achei tudo bem feito e maravilhoso!
E então comecei a preparar a mesa. Escolhi a mais bela toalha, separei os pratos, arrumei os talheres, organizei os guardanapos, coloquei as taças para vinho e água, dispus um arranjo floral, deixei a música encantar o ambiente e pus um meio tom à meia luz!
Em seguida, tomei o mais belo banho de minha vida, tomei o sabonete como se fosse tua língua, sequei meu corpo com cuidado e carinho, perfumei-me por inteiro mais não muito para não confundi você, vesti um belo vestido aquele que me deixa estonteante (muito fácil de tirar, inclusive), coloquei aquele batom vermelho que adoro, arrumei meus cabelos dando-lhes um aspecto desarrumado, charmoso!
A música já tomava toda a casa, a bela mesa era mesmo um convite para jantar, eu era um convite para loucura! Eu tinha ali a minha disposição: A música, a mesa, a mim mesma, mas, não tinha você... Faltava você (um pedaço importante de mim); faltava nossa cama (um todo revelador e enigmático) e faltávamos nós dois e nossos corpos conversando! Então faltava tudo?!
Sentir isso me causou uma dor! Uma dor difícil, insuportável! Chorei muito, me torci de tristeza e me contorci de angústia! Sentei-me no chão e me vi sozinha em meio a minha ilusão. Minha ilusão, minha companhia traiçoeira! De repente, eu ouvi você falar comigo: ‘Amor, minha linda, tenta retomar tua vida, sai dessa solidão que te aflige, conforta teu corpo, não envelhece a alma, não se deixa morrer!’
Fiquei algumas horas meditando. Levantei-me devagar, fui em direção a mesa, jantei degustando, tomei o vinho que pus nas duas taças, e, assim tomei um pouco de você para mim!
Ao final da noite resolvi chegar à porta da sala e vi minha sombra. Pensei então: ‘Eu não estou sozinha. Minha sombra é parte de mim, minha única companhia agora! Preciso me fortalecer, para deixar o amor chegar, para deixar outro amor chegar... Também não quero que venha depressa, afoito, atropelando a vida! Quero que venha inteiro, sem medo de amar, sem medo de sentir, sem frescuras e sem clausuras, sem amarras e com vontade!’
Agora já posso ouvir calmamente todas as músicas, e, quando o sono chegar será preciso dormir em paz. Será preciso achar a paz no vulcão que me encontro. Será preciso pertencer-me, não mais me perder e se me perder que seja para encontrar esperanças! Cai, então, agora, a penúltima lágrima e a última pétala do floral que dispus à mesa!                     


5 de abril de 2011

Olhando

(Monólogo Harpa, Cena nº 19)

No domingo fui a praia... Por horas fiquei olhando as ondas, a areia branquinha sob e sobre meus pés. O céu resplandecia um tom nunca visto antes por mim...
Observei cada pessoa que passava. Admirei os corpos belos dos jovens rapazes que se exibiam e dos mais velhos que procuravam beleza, leveza no jeito de andar.
Adoro esse poder que a praia tem de nos deixar desnudos, mostrando as carnes e as curvas que temos. Adoro ver como as pessoas ficam soltas, leves e fogosas com olhares que teimam em mirar ‘aquela pessoa’, exalando o pecado gostoso de desejar!
Quando desfrutei as ondas, não queria mais voltar a terra. Elas, as ondas, são expressões de vida, força, pureza, magia, encantamento... Quando elas me tomam o corpo por inteiro sinto-as como um presente de Deus para mim!
Ah! Se eu pudesse! Se eu pudesse pediria aquele mar, aquelas ondas vindas de tão longe para trazerem você para perto de mim. Ô amor, você se lembra, de quando nós íamos para o mar com a desculpa de nos banharmos?
Nós íamos para as águas salgadas e ficávamos por lá horas, naquele amasso gostoso, corpo no corpo, língua na língua, que nunca alguém poderia imaginar!
Nossa como era bom! E você me levava para mais longe, segurava as minhas mãos e íamos nadando... Nadávamos tanto que nos afastávamos do tempo... O tempo, nessa hora, não se fazia presente entre nós dois.
Não havia lugar para o tempo, Éramos absolutos e absolutos tirávamos as relativas poucas roupas que ainda cobriam as nossas vergonhas e despudorados ficávamos a mercê do sol, do sal, das mãos, dos desejos secretos, mundanos e pecaminosos, usurpadores de nossa alma cálida!
Éramos muito felizes! Éramos não! Ainda somos! Porque nunca vamos esquecer aquelas manhãs de chuva, aquelas tardes ensolaradas e aquelas noites de lua em flor que nos acompanhavam a flor da pele, que sem espinhos bailava as pétalas por entre os dedos!
Eu te amo! O mar sabe disso! Meus segredos também sabem! Você me ama?! Eu não sei dizer! Eu ainda acho que sim! Só em achar já me sinto parte de um todo que não mais me pertence!
Sabemos, no silêncio das ondas de outros mares, que meu corpo ainda reclama a ausência do teu, e, que teu corpo ainda chora a lembrança do meu!
O que nos consola é sentir que ‘nosso corpo’ sem ‘nosso corpo’ é  mar que não navega, é onda que não leva, é sol que não aquece, é labirinto sem saída, é armadilha que nos mata, é saudade que traz o gosto de sal, em forma de lágrima, única alma que ainda nos une!       

4 de abril de 2011

Uva e Caqui

(Monólogo Harpa, Cena nº 18)

Era madrugada e a chuva fina molhava devagar a janela do meu quarto. Fechei as cortinas para dar à luz um tom cristal. Depois retornei a cama e deitei-me devagar. Olhei ao redor do quarto e estava tudo calmo e sereno, facilitando ouvir a respiração pausada.
As paredes em tom pastel e as cortinas bem arrumadas deixavam um ar de penumbra e solidão. Tinha encantamento também na meia luz que tomava todo ambiente. Os quadros lembravam um viver colonial e os móveis acompanhavam o bom gosto.
Senti então falta da música. Pensei: O 'Andrea' (o Bocelli) cairia bem agora, neste momento meu que compartilho apenas comigo! Levantei-me devagar da cama bem arrumada para não correr o risco de quebrar toda preparação iniciada.

Escolhi com carinho a música italiana, escolhi como sempre alguma que me toma o corpo todo e me faz viajar por trilhas ainda inexploradas.
O Andrea começou a cantar e eu retornei a cama. Olhei para mim e percebi a beleza na tez branca, sem manchas, sem arranhões, sem vacilos e vi o quanto as curvas que tenho podem deixar um homem louco, confuso, perdido e querendo se encontrar!
E então toquei em cada pedacinho de mim... Cada pedacinho um todo de mim! E desfrutei da beleza de ser mulher, de sentir-me mulher, fazer-me mulher! Eu amo ser quem sou e isso é inteiro, é intenso e é mágico também!
Fiquei por alguns instantes a me perguntar: ‘O que faz um homem não desfrutar de tamanha doçura, quentura de partes?’ Depois desistir de ficar pensando porque se não desfruta é porque gosta da fruta que se assemelha a ti. Conclui!
E por falar em fruta as que eu mais gosto são ‘uva’ e ‘caqui’. São delícias que devemos apreciar com calma. A calma aqui é muito necessária! E os dedos de uma mulher sabem o que a calma pode provocar! 

Nada de pressa para não perder o doce suave do mel que toma os dedos nos lábios e os lábios no corpo numa mistura profana e sagrada d'onde repousa o corpo sedento de não paz e prazer - em um mesmo paraíso!
Por falar em paraíso, uma mulher bem sabe quais são e onde ficam os paraísos que ela tem! Sabe também dos atalhos, daquele jeitinho que pode dar em momento em que o tempo parece não querer colaborar!  

Neles existem o gosto de frutas que se come com as mãos e se saboreia com os dedos molhados de saliva, produto da língua no afã de sentir!
Depois então de sentir as frutas em mim e eu repleta do sabor que elas proporcionam, e, de sentir as delícias em carícias que as mãos nos permitem, respirei aliviada e flutuando, dormi sem vontade de acordar e quando acordei desejei retomar o sonho aquele que me levou para dentro de mim e me fez aguar de amor!

24 de março de 2011

Sabor de Mar!

(Monólogo Harpa, Cena nº 17)




Você é algo assim... Inexplicável, você! Inesperado, você! Se alguém me perguntar qual é o teu sabor? Eu direi: ‘Sabor de amar! Sabor de amar ao som do mar! Sabor de mar!'
Só eu sei que sabor é esse! Pode vir quem vier, vir de onde vier, vir prometendo o que for, vir falando o que quer... Sentir mesmo, sentir você, como eu senti, só se souber qual é o sabor do mar...
Não, não digo sabor salgado que nos toma de assalto. É um outro sabor meu bem, um outro sabor com gosto de homem, de homem ao mar que navega a procura do que lhe apraz: a mulher desejada!

 E o mar, meu amor, ao sabor de 'a-sóis' era tão repleto de nós e dos mergulhos que fizemos a procura de mares, a procura de nós, a espera de ilhas, a espera de nós! Você, o sabor do mar! Eu, o querer das ilhas! Nós buscavámos as ilhas enquanto exploravamos os mares lençóis!   
Belas tardes de sábado e manhãs de domingo... Nós, o mar, seu sabor, meu suor... Tudo se misturava e você me banhava, me beijava, me abraçava com tamanha fome de mim que eu não via as ondas altas, não via o “chão’’ sumir de meus pés...
Eu estava segura! Teus braços de ‘homem do mar’ traziam um sossego de desassossegar! Teus olhos não me perdiam de vista... Eu estava ali e você estava ali, comigo! E inteiros, simplesmente, estávamos! Quem se atreveria a tirar de nós aquela calma que em ondas tomava todo o nosso mar, o nosso mar em volta de nós?!
Quando o sol saía para se pôr nós nos olhávamos com tanto frescor, queríamos que o dia estivesse começando, não queríamos terminar nada... O nada, lugar vazio, sem nós dois! ... Mas o dia ía anunciando seu fim. Nós não, sem fim que nos bastasse, nós queríamos sempre mais... Muito mais para ficarmos ali... Então...  
Quando a noite se pronunciava, era tão bom ver você me convidando para cama (nossa cama, um outro mar em que mergulhos não faltavam ao som da nossa melhor música: Os beijos!)Beijos, beijos! Muitos, muitos... Tantos que nem sei, que nunca me atrevi a contar. Sentir nos bastava, nos fazia dormir! 
Ah! Pensando bem teve um dia que você me deu cem beijos, lembra? Ia beijando cada pedacinho de mim e contando, contando, contando, e, quando se perdia nas contas começava tudo outra vez... Nossa que sabor e a pele parece que somente agradece o contato da língua!
Era você, o mar, o sabor. Era eu, o mergulho, o calor! Éramos nós, repletos de vida, quereres a milhares, e, ilhas de amor, nas ondas do porto, na barra do sol, numa cama divina cujos corpos ainda resistem as juras eternas das línguas que não se desmentem!